
Autor: Luís Fernando Martins Pingueiro, bacharel em Administração e especialista em riscos psicossociais e gestão de riscos humanos. Sócio-fundador e CEO da Próspero Consultoria Empresarial, Assessoria e Treinamentos.
Data da Elaboração: 28 de outubro de 2026 – 14:43
Em 1987, Paul O’Neill assumiu a presidência da Alcoa, uma das maiores empresas de alumínio do mundo. Em sua primeira reunião com investidores, surpreendeu ao anunciar que a segurança dos trabalhadores seria sua prioridade. A declaração gerou espanto e ceticismo entre analistas.
A escolha de O’Neill partia de uma ideia simples: segurança não era apenas uma obrigação ou um custo. Era um sinal de que a empresa estava bem gerida. Ao priorizar a prevenção, a comunicação e a resolução rápida de problemas, ele ajudou a transformar a cultura operacional da Alcoa.
Essa experiência oferece uma reflexão importante para as empresas brasileiras: cuidar das pessoas também pode contribuir para a eficiência e a sustentabilidade do negócio. Com a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde 26 de maio de 2026, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho passaram a ser incluídos expressamente no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
O que a NR-1 estabelece sobre riscos psicossociais
A NR-1 determina que o GRO abranja os riscos ocupacionais, incluindo os relacionados a fatores ergonômicos e os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A organização deve considerar as condições de trabalho previstas na NR-17 e integrar esses fatores ao processo de identificação de perigos, avaliação de riscos e adoção de medidas preventivas.
Entre os fatores que podem ser relevantes estão a sobrecarga de trabalho, o assédio e problemas na organização e na gestão do trabalho. A análise deve olhar para as condições em que o trabalho acontece, e não reduzir o problemático a características individuais dos trabalhadores.
Na prática, isso significa avaliar os riscos de acordo com a realidade de cada organização e planejar medidas de prevenção compatíveis com as situações identificadas. Questionários podem ser uma fonte de informação, mas não substituem a análise das condições de trabalho nem a participação efetiva dos trabalhadores.
Por que essa gestão também importa para o negócio
A prevenção de riscos psicossociais tem como prioridade proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores. Também pode ajudar a empresa a compreender fatores que afetam o funcionamento das equipes e da operação.
Entre os efeitos que as organizações podem acompanhar estão:
- Afastamentos e absenteísmo;
- Rotatividade e custos relacionados à substituição de profissionais;
- Queixas, conflitos e relatos de situações de risco;
- Sobrecarga e dificuldades para executar as atividades;
- Indicadores de produtividade, sempre interpretados junto ao contexto de trabalho.
Esses indicadores não demonstram, isoladamente, a causa de um problema nem garantem determinado retorno financeiro. Seu valor está em ajudar a orientar uma análise mais ampla e a avaliar se as medidas preventivas estão respondendo aos riscos identificados.
O paralelo com a Alcoa: cultura, não apenas conformidade
O’Neill não tratou segurança como uma formalidade. A ideia era incorporá-la à forma de gerir a operação, estimular a comunicação de problemas e agir diante dos riscos. A lição para as empresas é que resultados sustentáveis dependem de práticas consistentes, e não apenas de documentos ou campanhas pontuais.
A aplicação da NR-1 aos riscos psicossociais pode seguir uma lógica semelhante: cumprir os requisitos legais é essencial, mas a prevenção se fortalece quando faz parte da gestão cotidiana.
| Dimensão | Experiência da Alcoa | Gestão de riscos psicossociais |
| Foco preventivo | Segurança física | Fatores psicossociais relacionados ao trabalho |
| Prática de gestão | Comunicação e resposta a incidentes | Identificação, avaliação e prevenção dos riscos |
| Participação | Trabalhadores envolvidos na segurança | Trabalhadores participando da análise das condições de trabalho |
| Resultado esperado | Operação mais segura e confiável | Ambientes de trabalho mais seguros e organização mais preparada |
Para que essa integração funcione, lideranças precisam levar a sério os relatos de problemas, avaliar a organização do trabalho e acompanhar as medidas adotadas. Canais de escuta devem ser confiáveis, e as informações coletadas precisam ser tratadas com responsabilidade, respeitando a privacidade das pessoas.
Da exigência legal à prática de gestão: como aplicar no dia a dia
Para transitar da mera conformidade para uma gestão transformadora, as organizações podem estruturar a implementação da NR-1 em passos práticos:
1. Mapeamento e Escuta Ativa Segura: Implementar canais confidenciais de escuta e realizar diagnósticos periódicos do ambiente de trabalho com a participação direta dos colaboradores.
2. Revisão da Organização do Trabalho: Avaliar a distribuição de cargas e prazos, alinhando expectativas reais para mitigar a sobrecarga contínua de tarefas.
3. Capacitação de Lideranças: Treinar gestores para identificar sinais de estresse, gerenciar conflitos com empatia e manter um diálogo aberto e sem retaliações.
4. Monitoramento e Melhoria Contínua: Acompanhar periodicamente os indicadores de clima e saúde laboral, ajustando os planos de ação preventiva sempre que novas demandas surgirem.
Assim como a segurança física, a saúde emocional relacionada ao trabalho depende de decisões de gestão, condições adequadas e melhoria contínua. A conformidade legal é o ponto de partida; a prevenção incorporada à cultura organizacional é o que gera continuidade e resultados duradouros.
Conclusão: prevenção é investimento nas pessoas e na organização
A inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no GRO amplia a responsabilidade das empresas sobre as condições em que o trabalho é organizado e realizado. A NR-1 oferece uma oportunidade para identificar problemas, planejar medidas preventivas e fortalecer a participação dos trabalhadores.
O exemplo associado à liderança de Paul O’Neill na Alcoa ajuda a ilustrar uma ideia: cuidar da segurança pode ser parte de uma gestão eficiente. No contexto atual, integrar a prevenção dos riscos psicossociais à rotina da empresa pode beneficiar os trabalhadores e contribuir para uma organização mais sustentável. Esse potencial, porém, depende de ações efetivas, não é um retorno financeiro automático.
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